Por que a Direita permite que a Esquerda paute o debate?
(Artigo publicado, originariamente, em Articulação Conservadora, disponível em:
Autores: Paulo Antonio Papini
Guillermo Federico Piacesi Ramos
Quem me dá a honra de ler meus escritos aqui (e onde mais eu escreva) já me conhece, relativamente, e sabe reconhecer o meu estilo literário e pessoal. Sou daqueles que tentam fazer do Conservadorismo um estilo de vida, antes de uma ideologia política[1].
Sou um crítico profundo da era do relativismo em que nos encontramos atualmente, fruto, principalmente, de mais de 200 anos da evolução das correntes filosóficas surgidas especialmente na Alemanha, com o Racionalismo de Kant, que levou à nova noção de homem no tempo, com o “ser-aí” de Heidegger, ao Nihilismo de Nietzsche, e ao Comunismo de Marx. Tudo isso levou ao Relativismo de Marcuse e outros “frankfurtianos” da primeira metade do século XX, que atacam todas as bases da civilização que herdamos de nossos antepassados, e tentam, indubitavelmente, levar-nos todos à decadência.
Obviamente, para não me pregarem a pecha de “germanofóbico”, devo dizer que felizmente temos Joseph Ratzinger para equilibrar um pouco a balança, na filosofia da Alemanha, e claro que o que eu escrevi no parágrafo anterior foi em tom de provocação; peço escusas ao povo tedesco, por quem nutro profunda admiração e simpatia.
Dito isto, esclareço que todo o acima exposto foi para introduzir o presente texto, que quero esclarecer ter sido escrito por meio de uma ideia do meu amigo e colega Paulo Antonio Papini, um combativo e aguerrido advogado estabelecido em São Paulo, conhecido por seu posicionamento de Direita, e nitidamente conservador.
A quase totalidade do artigo foi escrito pelo meu colega; pretendi apenas, humildemente, contribuir com alguns apontamentos de minha própria autoria, devido ao esgotamento do tema por parte dele.
Seja como for, a autoria do texto terá que ser creditada a nós, ambos; mas com uns 80% do crédito a ele, Paulo Papini, que apresentará suas credenciais ao final.
Vamos, pois, ao tema do artigo propriamente dito, objeto da pergunta que serve como título a esse artigo, que procuramos aqui responder (e a partir de agora o texto passa ser escrito na primeira pessoa do plural, para deixar claro que se trata de ambos os autores).
– Por qual razão nós, conservadores e liberais, permitimos que o debate político e, principalmente, intelectual, seja pautado pela esquerda? – essa é a pergunta.
Antes de exemplificar o ponto, melhor dizendo, o principal ponto que ilustra o tema tratado neste artigo, tentamos, humildemente, responder a esta questão. Sinceramente, a resposta a esta questão renderia algumas teses de doutorado que iriam da filosofia à semiótica, passando pelo direito e psicologia.
Realmente é difícil concluirmos, num ensaio, as razões profundas que fazem com os conservadores assim procederem, mas arriscamos dizer que nos deixamos (quer dizer, não os autores desse texto) ser guiados no debate intelectual pelos progressistas (belo eufemismo para comunistas) em razão do mito do elevado padrão intelectual e cultural destes.
Nada é mais falso que isso. Recentemente o Brasil percebeu, um pouco mais tardiamente que os EUA, que artistas de TV e Cinema, em sua grande maioria, são analfabetos funcionais. Aliás, quem definiu com maestria o nível intelectual dos astros de Hollywood foi o humorista inglês Ricky Gervais: “vocês não têm lição alguma para dar a ninguém, a maior parte de vocês tem menos tempo de escolaridade que Greta Thumberg”.
Há não muito tempo, estávamos conversando com um Professor de Economia, marxista (como se Docente em Ciências Econômicas e Marxista não fosse uma redundância), e este quando visitou nosso escritório, precisamente o do co-autor Paulo Papini, anunciara que levaria um artigo que abalaria suas convicções. Tratava-se do artigo de Wagner Moura sobre o impeachment de Dilma Rousseff. A questão que fica é: salvo uma conta bancária mais gorda, muito mais gorda, por qual razão um ator teria algo a dizer, que fosse minimamente útil, a um jurista? Foi isso que perguntamos ao nosso querido amigo marxista.
Voltamos à questão do mito. Uma das melhores definições de “mito” é dada por Pierre Grimal (in, Mitologia Grega, 2013, L&PM): ”Um mito é uma narrativa de caráter simbólico-imagético, ou seja, o mito não é uma realidade independente, mas evolui com as condições históricas e étnicas relacionadas a uma dada cultura, que procura explicar e demonstrar, por meio da ação e do modo de ser das personagens, a origem das coisas”. Humildemente poderíamos ampliar a visão de Grimal sobre o tema: o mito é uma representação da coisa; mas vai além disso, é uma hipérbole, uma versão hipertrofiada daquilo que pretende definir.
Como dissemos, apenas há muito pouco tempo paramos de mitificar astros de TV, Teatro e Cinema como se fossem grandes pensadores. Aliás, em 1994, em entrevista à Folha de São Paulo[2], Jards Macalé dissera: “Gil é um grande músico. Caetano é um grande letrista. Mas dizer que eles são grandes pensadores é cascata.”[3]
Bem, se por um lado começamos, ainda que lentamente, a desmistificar globais e hollywoodianos, o fato é que ainda temos em nós arraigada a ideia de que escritores e compositores são grandes gênios da humanidade. Isso também é falso, em que pese alguns talentos ímpares que alguns possuem, escrever um livro não faz de ninguém um especialista em Teoria M (também chamada teoria das cordas), ou, por outra, ter o talento necessário para produzir uma grande obra literária não torna ninguém apto a dizer o que é certo e o que é errado, ou a definir os caminhos que a humanidade deve trilhar.
E aí reside o problema, como bem aponta Jesús Huerta de Soto (in, Por que os intelectuais odeiam o capitalismo)[4]: a grande maioria dos intelectuais/escritores/acadêmicos é, declaradamente, esquerdista. Ora, de um lado é – relativamente fácil – reconhecer a superficialidade intelectual de um Leonardo Dicaprio ou de um Wagner Moura; por outro, é mais difícil entender que José Saramago, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ernest Hemingway, dentre outros, são apenas e tão-somente (tal e qual os artistas cênicos) pessoas que têm um talento limitado que se destinam, invariavelmente, ao entretenimento.
Mais que isso, essa valorização extremada do “pensador-romancista”, “pensador-compositor”, dentre outros também se dá porque os autores (economistas, juristas, sociólogos, dentre outros) de Direita (conservadores e liberais, ou libertários, como preferem alguns) têm algo em comum com os primeiros. Todos escrevem e ganham a vida através dos seus escritos, inclusive os autores deste texto, que têm livros e dezenas de artigos jurídicos publicados.
Ora, como podemos ter a ousadia de não reconhecer em Saramago, autor de uma das maiores obras-primas já escritas no mundo moderno, chamada “Ensaio sobre a cegueira”, um gigante intelectual, se Paulo Papini e Guillermo Piacesi, que não têm um centésimo do talento daquele com as palavras, também ganham seu pão através daquilo que escrevem?[5]
Essa é a nosso ver a principal, não a única – certamente –, pela qual há esse endeusamento do intelecto de pessoas que são, absolutamente comuns, tendo um talento específico para o entretenimento. Ocorre que essas pessoas, absolutamente comuns, são em sua grande maioria comunistas[6]. E aí começa o problema: se a maior parte dos “intelectuais” (assim reconhecidos até pelos conservadores) é filiada ou simpatizante a partidos de orientação socialista ou social-democrata, como então negar que a média intelectual desses partidos é, consideravelmente, mais alta que aqueles inclinados à Direita.
Não é incomum, muito ao contrário, vermos alguém ligado a Direita fazer o seguinte comentário: “sou radicalmente contrário ao PT, ao PSOL ou aos Partido Democrata (dos EUA), mas sou obrigado a reconhecer o alto de seus quadros”.
Conservadores e liberais, ainda que não o assumam (e isso se aplica também, como veremos à frente, a Jordan Peterson, Olavo de Carvalho, Roger Scruton, dentre outros), têm a mais absoluta certeza de que estão enfrentando um inimigo mais forte e intelectualmente mais preparados que a si próprios.
Dito isto, fica a pergunta: qual a primeira regra quando se enfrenta um inimigo mais forte? Resposta: não aparente fraqueza! Essa regra, traduzida ao mundo das ideias, equivale a: não seja burro, ou não aparente sê-lo.
E é aí que reside o problema: o conservador, ao debater com um marxista, procura impactá-lo com o [alto] nível de seu intelecto, pois se preocupa com aquilo que seu antagonista pensará de si; em contrapartida, ao marxista está – literalmente – pouco se importando com a impressão que causará no seu oponente[7].
Interessante notar como até mesmo o Professor Olavo de Carvalho, que alerta para esse fenômeno, também se rende a ele[8].
E é exatamente esse o ponto deste artigo: em todos os debates[9] entre conservadores e liberais contra marxistas e progressistas a principal pergunta que poderia ser feita para derrubar, de uma vez por todas, essa ideologia nefasta seria: “Se o socialismo é tão bom, por que as pessoas são proibidas de sair dos países socialistas? Explique-me, por favor, a razão do Muro de Berlim?” Essa é, com efeito, a questão fundamental que os debatedores citados não tocaram, ou quando o fizeram, foi apenas de forma incidental aos marxistas/progressistas.
Agora, vamos explicar porque a Direita tem medinho de fazer essa pergunta a um comunista. Sempre que você fizer essa indagação a um esquerdista, ouvirá dele a seguinte resposta, seguida de um sorriso de deboche[10]:
– De novo com essa história do Muro de Berlim? Você não tem outro argumento?
Para não vestirem a carapuça de pouco qualificados intelectualmente (sim, pois quem não tem mais argumentos ou é burro ou é pouco criativo), intelectuais de Direita simplesmente evitam ou, no máximo, tangenciam essa questão. Ao passo que deveriam responder, quando indagados se não tem outra pergunta:
– Não, é óbvio que não tenho outra pergunta. Como um regime que proíbe as pessoas de sair do país pode ser considerado, em algum nível, bom se não é dado às pessoas um dos mais fundamentais direitos inerentes à condição humana. Qual seja: o de ir e vir.
É importante anotar que sempre que um socialista quer falar dos fracassos do capitalismo ele cita o Haiti[11]. Lembrem-se, por exemplo, de um certo integrante da “Santíssima Trindade da Música Popular Brasileira”[12], que chegou até a compor uma música chamada “O Haiti é aqui”.
Ocorre que mesmo o Haiti, um dos mais miseráveis países do mundo, não proíbe seus habitantes de deixar o país se assim o quiserem, diferente de Cuba, Coreia do Norte, URSS, Alemanha Oriental (quando de sua existência), dentre outros.
Com efeito, o problema da pergunta que, por medo de parecerem inaptos, os conservadores não fazem aos marxistas é a única que, de fato, tem o condão de desmontá-los na resposta (daí porque o deboche).
Para todas as outras questões ligadas ao fracasso do socialismo existem respostas (ainda que sejam sofismas e/ou meias-verdades):
1) Por que ditadura? R: porque o sistema democrático capitalista é viciado pelo empresariado e excluí o povo do Poder.
2) Por que planejamento central? R: não podemos deixar que vidas humanas fiquem à mercê do mercado. Lembra-se da Crise de 1929?
3) Por que o fracasso econômico? R: Por causa do Embargo.
E assim sucessivamente.
A única questão que desconcerta um esquerdista é: se o sistema é ótimo, por que cubanos arriscam-se num mar infestado de tubarões para deixar o Éden? E essa pergunta não é feita pela razão, simples e direta, tal como explicamos no [longo] início deste texto de que o debate ideológico é pautado pela esquerda.
Essa é, francamente, a questão fundamental que deveria ser feita a qualquer esquerdista. Quando alguém fosse listar as 50 razões pelas quais o socialismo fracassou, e sempre irá fracassar, as 25 primeiras deveriam ser: 1) Porque não há direito de ir e vir; 2) Porque não há direito de ir e vir…; 25) Porque não há direito de ir e vir. Essa é a principal e mais definitiva questão que pode ser feito a qualquer socialista.
Intelectuais de Direita (podemos citar aqui o Professor Olavo, Jordan Peterson, Evandro Pontes, dentre outros) precisam – com extrema urgência – entender isso e ser incisivos nesse questionamento aos marxistas.
Sim, sabemos que insistir nessa questão pode lhes trazer a pecha de burros[13], mas, sinceramente, defender a verdade sempre foi um caminho mais difícil, mais tortuoso, que a mentira. Basta saber que nosso Salvador tinha 12, e apenas 12 seguidores – e um deles o traiu, e outro, ainda que por medo, o negou. Enfim, conservadorismo não é para covardes, ou, como diz Olavo de Carvalho, “não é para homens de geleia”.
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Notas de Fim:
[1] Que humildemente, dentro da Moral Cristã, tão bem explicada pela Teologia Moral (leia-se, por todos, “Pinckaers”, com seu “Las fuentes de la moral Cristiana – su método, su contenido, su historia”, EUNSA, Pamplona), tenta ser apenas um “purista”, que busca incessantemente o chamado divino à santificação.
[2] Sim, gerações mais novas, acreditem, houve um tempo em que a Folha de São Paulo era um veículo de comunicação medianamente respeitável e com honestidade intelectual em suas matérias; sim, tinha uma visão inclinada à esquerda (e sempre foi assim), mas seria impensável àquela época a manipulação grotesca das notícias como fazem hoje.
[3] Folha de São Paulo/Ilustrada, 12 de fevereiro de 1994. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/2/12/ilustrada/1.html
[4]SOTO, Jesús Huerta de. Por que os intelectuais odeiam o capitalismo. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1487
[5] A respeito desse tema, da infiltração da classe artística na intelectualidade, alçados, todos, à condição de “intelectuais orgânicos”, não podemos deixar de recomendar, fortemente, aqui, a obra de Flavio Gordon, “A corrupção da inteligência – intelectuais e poder no Brasil”, lançada pela Editora Record em 2017, e atualmente já na sua vigésima edição.
[6] Não tem sentido num texto em que buscamos refutar o direito (auto) atribuído aos comunistas de pautar o debate usarmos o eufemismo “progressista” para pessoas que, de fato, são comunistas. Com efeito, como diz a sabedoria popular: “se tem rabo de gato, cara de gato, escala muro e mia, é gato”.
[7] Bem, neste aspecto podemos dizer que os socialistas, se não são mais inteligentes, ao menos manejam melhor as ferramentas necessárias para vencer a luta que travam.
[8] Sobre esse assunto, entendemos que Olavo de Carvalho é certamente a maior autoridade em debates e suas técnicas para refutar falácias. Recomendamos a obra “como vencer um debate sem precisar ter razão”, de Schopenhauer, traduzida por ele (Olavo de Carvalho) nos anos 90, e com notas e comentários de sua autoria.
[9] Podemos citar Olavo de Carvalho x Aleksandr Dugin, que no final acabou dando origem a um livro, recentemente lançado, chamado “Os EUA e a nova ordem mundial: um debate entre Alexandr Duguin e Olavo de Carvalho”, da Vide Editorial; Rodrigo Constantino x Ciro Gomes, ou Jordan Peterson x Slavoj Zizek, dentre outros.
[10] Aliás, a melhor definição sobre a natureza argumentativa do “sorriso de deboche” quem deu foi o Professor Olavo de Carvalho. Impublicável neste espaço.
[11] Como se um dos países mais miseráveis do planeta pudesse ser referência para a aquilatação do sucesso, ou não, de uma doutrina econômica e política.
[12] E que personifica, esse tal artista, a elite intelectual corrompida a que se refere Flavio Gordon na obra “A corrupção da inteligência”, já recomendada antes, e mais uma vez citada.
[13] E depois dos 40, a vaidade do ser humano migra do aspecto físico, para o intelectual. Que o digam os autores desse artigo. São bonitos, quando muito, para suas mamães (em dia em que elas estão de boa-vontade, e com a mesada em dia) e cada consulta de suas esposas ao oftalmologista é um risco concreto de divórcio.
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