Dias de uma Advocacia esquecida - O estagiário que assumiu a audiência

 Então, amigos, ando fazendo esse relato das minhas experiências, dos meus causos na Advocacia e lembrei agora de um engraçado, pitoresco, mais uma vez digo, coisas que eram feitas, há 30 anos, quase que na inocência e hoje - certamente - gerariam sérios problemas às partes envolvidas.



O ano era 1994, eu era Estagiário de um grande Escritório de Advocacia Trabalhista, uma das grandes escolas que tive, não citarei o nome, por questões óbvias.

Daí acontece que os Juízes da área trabalhista tinham/têm a insuportável mania de marcar audiências com 5 minutos de distância uma para a outra. Nem que sejam realizados acordos em todos os processos uma audiência é tão rápida.

Não sei se ainda é assim, mas era fato corriqueiro ir ao Fórum trabalhista para uma audiência que deveria começar às 10h da manhã e, por volta das 15h a audiência sequer ter começado. No cível, mormente no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, raramente as audiências atrasavam mais que meia hora...

Voltemos, então nesse escritório os estagiários faziam um trabalho chamado "controle". Um mesmo Advogado do escritório era escalado para 2 ou mais audiências, em Varas Trabalhistas distintas, que poderiam, eventualmente, acontecer no mesmo horário.

Nossa função, então, era monitorarmos essas audiências e se percebêssemos que os horários das audiências iriam coincidir, ligávamos para o escritório e pedíamos que enviassem outro Advogado.

Pois bem, numa dessas vezes, constatei a necessidade de chamar um Advogado para a audiência que eu estava "controlando" e liguei no escritório. Esperei na sala de audiência. O horário da audiência chegando e nada do Advogado chegar. A coisa apertando e nada, neca de pitibiribas.

Detalhe, estávamos pela reclamada. Não apareceu na audiência é revelia. Detalhe, revelia no Trabalhista não é essa farra que é no cível. No cível, o prazo para a apresentação da defesa é quase que uma sugestão, ao passo que na trabalhista [que nesse aspecto tem uma visão mais acertada que o cível, revelia é perder por W.O. Simples assim.]

Bem, lá estava o Paulo Antonio Papini, no seu elevadíssimo saber jurídico de estagiento segundo-anista fazendo o controle da audiência, o meu protocolo já havia sido cumprido, correto, já havia informado o escritório da necessidade do Advogado e nada do infeliz aparecer.

O problema é que eu não achava correto sair da audiência sem ter a certeza que haveria um Advogado para aquele processo. Pois bem, começa a audiência e o Juiz Classista apregoa o nome da reclamada e pergunta do seu Advogado.

Não pensei duas vezes...Sentei à mesa [não é sentei na mesa, caso assim o fosse teria sentado sobre a mesa]; o Juiz perguntou..."O Dr. é Advogado?" Com o fiofó na mão respondi...."mmhmmunsm".

Os segundos passavam e nada do lazarento aparecer. Nova pergunta, irritada do Magistrado, e novo murmúrio da minha parte, até que aparece o Advogado.

Até que o sujeito aparece, troca de lugar rapidamente comigo, e eu saio correndo direto para o banheiro. Por pouco a conta não fecha...na audiência e no W.C.

Daí um Advogado que encontrávamos sempre nas Varas do Trabalho, o chamávamos, carinhosamente, de Dr. Salsicha, disse algo que me marcou...."Dr., Advogar é basicamente o que o Sr. fez hoje, é não deixar a peteca cair." Naquele momento, ainda no Segundo Ano de Direito eu descobri que era um Advogado.

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