As cuecas expostas da Advocacia

Houve um tempo em que Grandes Advogados destacavam-se pelo notório, em toda a acepção e carga trazida por este termo, Saber Jurídico. Alguns destacavam-se por defender uma Dissertação de Mestrado, uma Tese de Doutorado, por serem profícuos escritores, ou, por serem grandes, excelentes Tribunos.



Márcio Thomaz Bastos e Waldir Troncoso Peres, por exemplo, eram gigantes da Advocacia e pararam os estudos [formais] no Bacharelado em ciências jurídicas.

Apesar de serem "apenas" bacharéis em Direito, eram disputados a peso de ouro pelos clientes, eram chamados de Excelência por Magistrados e Professores de Direito e, com frequência, eram convidados a dar aulas magnas em cursos de Mestrado e Doutorado.

Pontes de Miranda, autor, dentre outros, dos clássicos "Tratado das Ações" e "Tratado de Direito Privado" foi outro que "parou" no bacharelado. Bem, este particularmente foi não apenas um dos grandes gênios, mas um dos grandes gênios do Século XX. Basta dizer que correspondeu-se, e foi correspondido, com Albert Einstein, em alemão, tecendo considerações sobre a Teoria da Relatividade à Luz da Filosofia da Ciência.

João Mendes Junior, outro brilhante jurista que concluiu seu Doutorado, apenas 3 anos após graduar-se no bacharelado, além de brilhante jurista, foi um excelente Advogado [e se tornaria, ainda, Ministro do STF]. Com enorme justiça, na frente do Fórum [que leva seu nome] há uma placa [de bronze] em sua homenagem com os dizeres: "João Mendes Junior, primus inter pars" (primeiro entre os seus).

Inúmeros são os profissionais do Direito que se destaca[ra]m, ora pela Atividade Acadêmica, ora por serem virtuoses na Advocacia.

Mas, e sempre há um mas...

Vivemos tempos em que parecer tornou-se mais importante que ser. Hoje temos toda uma sorte de Advogados que fazem gracinhas no TikTok para impressionar clientes e, é claro, profissionais que fazem questão de posar para fotos de cuecas ou, pior ainda, se deixarem fotografar de bermudas no STF.

Aqui, vale fazer uma ressalva: as Cortes Superiores, quando permitem que um Advogado cometa tal disparate, sem qualquer tipo de admoestação, apequenam-se, não se dão ao respeito merecido.

Costumo dizer que tenho enorme orgulho de Advogar, quase que exclusivamente, no maior Tribunal da América Latina, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Seguramente uma palhaçada dessas não seria permitida na Corte Bandeirante.

Em todos, absolutamente todos processos em que trabalho, faço questão de realizar Sustentações Orais em Segunda Instância. Neste momento de pandemia e de sessões virtuais (e, lamento informar, amigos, mas as audiências e sessões de julgamento virtuais vieram para ficar, acostumem-se, aceitem e aprendam a lidar com este fato, ok) cansei de ver Advogados serem advertidos, com muita razão, por fazerem suas sustentações orais sem terno e/ou gravata, apenas de camisas.

Há quem ache que pode parecer um exagero. Penso que não. Se é certo que o hábito não faz o monge, também é certo que ele o identifica.

"(...) Se é certo que o hábito não faz o monge, também é certo que ele o identifica."

Contudo, em tempos de extrema miséria intelectual e moral em que vivemos, somos obrigados a ver profissionais que, na falta de terem predicados de melhor qualidade para mostrar (e impressionar seus clientes), eles resolvem impactar os mesmos mostrando que é chegado da Cortes, ao ponto de poderem frequentá-las em trajes de banho.

Obviamente que isso dá a entender, nos clientes e, muitas vezes, noutros profissionais, que ele conseguiria "favores especiais" com a Justiça. Não se iludam, amigos, é exatamente essa mensagem que alguém que posa com cueca de zebrinha (que papelão para um sexagenário) quer passar: "eu sou tão poderoso que vou de cueca às Cortes, imaginem se não tenho moral com os julgadores".

(E não deixa de ser curioso que, o Tribunal de Ética da OAB, que vive a aporrinhar Advogados por questões ligadas à publicidade se faça de surdo diante de um disparate desses. Enfim, o que esperar da OAB?????!!!!!)

Como dissemos acima, grandes Tribunos como Márcio T. BastosWaldir T. PeresSobral Pinto e outros jamais precisaram desses expedientes para se fazerem respeitar e impressionar, não apenas seus clientes mas, principalmente, seus pares. Enfim, cada um oferece aquilo que tem. Alguns seus intelectos, outros suas pernocas....

Tristes tempos de tiktokização da Advocacia.


Paulo Antonio Papini

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